Relegadas ao espaço do não-ser

Danielle Coenga-Oliveira
Instagram: @feministamenteleve

« Porque eu, uma mestiza, continuamente saio de uma cultura para outra, porque eu estou em todas as culturas ao mesmo tempo, alma entre dos mundos, tres, cuatro, me zumba la cabeza con lo contradictorio. Estoy norteada por todas las voces que me hablan simultáneamente »

-Gloria Anzaldúa, 2005

(Reflito) Mais cedo, havíamos comentado da inveja sentida da confiança que tinha aquele homem branco canadense profissionalmente bem posicionado que falava. Ironizávamos. Discutíamos de como aquela confiança [individual] pode ser pensada como o resultado da legitimação desse corpo [masculino, branco, heterossexual.. normalizado] e dos saberes que ele traz. Depois, trazendo reflexões sobre nossas próprias vivências, falamos em como mulheres e outros corpos subalternizados tem sua auto-estima e auto-confiança atacadas/dilaceradas durante seus percursos de vida. « Não é racional, não tem força, não sabe de política, não entende de economia, não goza, não entende, não sabe. Se cale! » .. Raça, classe, condição física, orientação sexual, identidade de gênero, língua, religião, localidade. Dependendo de onde partimos [de como somos] existe um não-dito [alta e amplamente] bem dito que nos afirma que não podemos e que não somos capazes. Vozes, atos, olhares que nos impõem e nos fazem acreditar que aquilo não é pra gente, que ali não é o nosso lugar. São micro-macro violências repetidas e constantes (um intenso processo de reificação, para lembrar Foucault e Butler) que nos querem transformar em corpos que não-são. Somos relegadas ao espaço do não-ser.

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Imagen: Danielle Coenga-Oliveira

(Lembro) Juntas, eu e ela filosofamos sobre esse sentimento que nos permeia, que nos invade, que nos constrói mulheres, pessoas, corpos fora da norma. Raça, classe, língua, pertencimento. Marcadores que influenciarão o lugar social que ocupamos, que vamos ocupar (é o famoso teto de vidro). Trazendo mais pra perto, nós duas, somos latinas, mulheres racisadas (não-brancas), imigrantes. Condições sociais, raciais, familiares, individuais marcam as mulheres que somos hoje. Quem somos. Mas, aqui, não somos do Norte Global, não pertencemos ao Ocidente (pasmem!), não falamos uma língua hegemônica, não somos. Embora, sejamos muitas e muitas coisas.. muitas vezes [aqui e ali] não somos.

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(Paro) Sentindo o pertencer ao espaço do não-ser, me lembro das palavras acolhedoras de Gloria Anzaldua em A consciência Mestiza. Lembro do abraço que senti ao ler seu texto. Me reconheço a Mestiza, aquela cuja consciência, corpo, saberes, sentires e olhares são fronteiriços. Sinto a margem. Sento à margem para apreciar as belezas da vida, para analisar os problemas do mundo. Estou nela e esse não-lugar se transforma num lugar revolucionário, fora e maior do que qualquer caixa.

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(Respiro) Isso me faz pensar em Fanon e no que ele chama da zona do não-ser. Uma « região extraordinariamente estéril e árida», diz ele. (Abro o livro pensando no não-ser, salto trechos, leio) « de tempos a outro, a gente tem vontade de parar. Exprimir o real é coisa árdua.. (Suspiro, salto, ele segue) « Sentimento de inferioridade? Não, sentimento de inexistência ».. (Calo) « quando a gente coloca na cabeça de tentar exprimir a existência, a gente corre o risco de apenas encontrar o inexistente ». (Sinto) Ecoa em mim e me faz pensar em tantos outros corpos.. Violentados para serem invisibilizados, apagados, aniquilados.. carregando um sentimento presente, que me é familiar / que nos é familiar, de não-ser.

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Mas Fanon nos presenteia no fim do capítulo (Sorrio). Dizemos, « contudo, de todo meu ser, eu recuso essa imputação. Eu me sinto uma alma tão vasta quanto o mundo, verdadeiramente uma alma profunda como o mais profundo dos rios, no meu peito carrego a potência da expansão infinita ».

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(Leveza) Sem mais. Sigamos sendo ser, sentido e partilhando por onde passarmos.

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