Que é ser brasileira fora do Brasil hoje?

Priscylla Monteiro Joca
Doutoranda em Direito pela Universidade de Montréal
Instagram: @priscyllamonteirojoca
priscyllamonteirojoca@gmail.com

Mais uma vez tenho o mesmo sonho-pesadelo. Minha mãe está doente e não consigo voltar há tempo. A mesma linha narrativa varia em suas versões: ou não há voo, ou não tenho grana pra voltar, ou, simples e tristemente, não deu tempo. A vida é um sopro e só partimos quando é chegada a nossa hora, responderiam algumas pessoas. Mas, como crer em tempo certo de encantar-se na morte, quando se sabe que o Brasil está diante de uma política programada para matar?

Acordo e vejo notícias internacionais sobre o Brasil. Algumas mídias comunicam o que precisa ser denunciado! O Brasil segue sob uma política genocida. Más ações e inações públicas têm, todos os dias, levado o país à beira de abismos. De um jeito que nos faz perguntar: existem abismos dentro de abismos? Pois todos os dias parecem ser o pior dia que podia haver.

Contudo, outras mídias internacionais seguem dando destaque ao fato de que ‘brasileiros não fazem isolamento social, querem só saber de festejar.’ Quando leio notícias assim, sinto ainda mais raiva e tristeza! O desrespeito ao isolamento social pelas classes mais altas—incluindo políticos e integrantes do judiciário—é um absurdo! E tem causado a morte de centenas de milhares de pessoas… Lembram quem levou a Covid para o Brasil? Lembram quais foram as primeiras pessoas a morrer? Contudo, a narrativa simplista (da aglomeração) não explica por si só o comportamento da grande maioria da população. Mas contribui para desviar a atenção das (ir)responsabilidades do Estado e do governo federal.

(Em Montréal, com todas as informações, apoio governamental, inclusive financeiro e alimentar—muito longe de ser ótimo, mas existente—e orientação para que se fique em casa e se use máscara—tipo, o básico—há várias pessoas que insistem em evocar a liberdade de não usar máscara, não se vacinar e aglomerar… Imaginem em um país em que se respira fake news e grande parte da população precisa seguir em trabalhos super precários, pegando ônibus lotados, para ter o que comer. Nesse caso, ir à igreja à noite ou à praia nos finais de semana não parece tão fora do contexto…)

Recentemente, uma pesquisa coordenada pela professora Deisy Ventura demonstrou de modo bem claro e fundamentado: a política de gestão da pandemia do governo federal—que envolve o Bolsonaro e seus ministérios—teve e tem a intenção de não investir em pesquisas para vacinas, nem na melhoria do sistema público de saúde e nem em apoio social-econômico efetivo às pessoas em situação de maior vulnerabilidade para que estas possam estar em isolamento social. E mais! O governo teve e tem a intenção de priorizar o funcionamento de um tipo de economia super-exploratória, se apoiando em charlatanismo, informações falsas e narrativas negacionista para manter essa mesma economia funcionando. Os corpos ‘descartáveis’ de pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica nunca entraram nessa conta. Afinal, são corpos que estão para fazer a economia girar no modo ‘morre um, tem outro’. ‘O importante é manter (nossa visão de) lucro’ (Ver entrevista de Deisy Ventura aqui).

Imagem: Marília Castelli (Unsplash)
Largo da Batata – Pinheiros, São Paulo – SP, Brasil Protest against Brazil’s President Jair Bolsonaro.

Daqui, sinto o Brasil todos os dias. Aprendendo a ser esse alguém na fronteira. As minhas raízes e redes mais valiosas, de afeto e amor, estão lá em Fortaleza, no meu Siará, onde a grande maioria das mortes tem se concentrado nos bairros periféricos e a Covid tem afetado de modo tão cruel pessoas negras, indígenas, quilombolas, de comunidades tradicionais, campesinas… Fecho os olhos, lembro de tantas mulheres, tantas filhas e tantas mães, nesse momento cada vez mais afetadas por uma (necro)política genocida a qual, espero, um dia seja julgada e responsabilizada como um crime contra a humanidade.

As lágrimas mais uma vez escorrem convencidas de que, da nossa gente brasileira, só não anda triste, angustiada e raivosa quem é autocentrada demais ou mal informada.

Abraços com muito carinho e amor a cada pessoa que está nos vários recantos do Brasil. O coração dói com vocês. E a força da luta e resistência das nossas gentes segue pulsando nas veias! Sigamos! O Brasil há de ter outros futuros para contar!

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