{"id":1057,"date":"2020-04-29T23:48:01","date_gmt":"2020-04-30T03:48:01","guid":{"rendered":"http:\/\/fundacionluvo.org\/?p=487"},"modified":"2020-04-29T23:48:01","modified_gmt":"2020-04-30T03:48:01","slug":"um-corpo-em-distopia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fundacionluvo.org\/?p=1057","title":{"rendered":"Um corpo em distopia"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align:center;\">A guerra que quando n\u00e3o mata, carcome e dilacera os corpos<\/h4>\n<p><strong>Lucas Dantas<\/strong><br \/>\nInstagram: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/lucasdants\/?hl=fr-ca\">@lucasdants<\/a><br \/>\n<a href=\"mailto:lucaseducadore@gmail.com\">lucaseducadore@gmail.com<\/a><br \/>\n<span style=\"text-decoration:underline;\">Imagem:<\/span> Corpo em distopia &#8211; Lai Ferreira (IG: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/llais_s\/?hl=fr-ca\">@llais_s<\/a>)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quem s\u00e3o os corpos que sobrevivem ao redemoinho genocida e violento do mundo? Quem s\u00e3o os corpos insustent\u00e1veis em sociedade? Quantos deles habitam a educa\u00e7\u00e3o exercendo seus direitos m\u00ednimos de cidadania? Quantos produzem conhecimento? Quantos prop\u00f5em sa\u00eddas e resultados para esta sociedade? Como a educa\u00e7\u00e3o contribui para a sustentabilidade ou para a insustentabilidade deles? Precisamos problematizar a perman\u00eancia dos corpos na educa\u00e7\u00e3o e refletir de que maneira o contexto educacional expulsa ou incentiva corpos n\u00e3o hegem\u00f4nicos a continuarem nela, produzindo conhecimento, elaborando propostas e outras maneiras de habitar o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Estamos vivendo uma guerra contra os corpos dissidentes. Mas, ela \u00e9 silenciosa. Por vezes ela se mostra, outrora se esconde. Ela n\u00e3o nasceu agora, ela \u00e9 ancestral. Ela se atualiza. Estamos vivendo uma guerra. Mas, ela faz parecer que n\u00e3o \u00e9 uma guerra. Ela faz parecer que as coisas est\u00e3o bem e que tudo est\u00e1 caminhando no seu devido lugar. Ela faz parecer que n\u00e3o \u00e9 uma guerra para que fiquemos em estado de submiss\u00e3o, de passividade, em estado de torpor e aliena\u00e7\u00e3o. Desarticular as informa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de um povo \u00e9 a melhor estrat\u00e9gia para que esse povo possa n\u00e3o ter consci\u00eancia do estado em que ele se encontra e, n\u00e3o tendo consci\u00eancia, n\u00e3o visualiza mudan\u00e7as.<\/p>\n<figure id=\"attachment_490\" aria-describedby=\"caption-attachment-490\" style=\"width: 428px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"  wp-image-490 alignleft\" src=\"https:\/\/fundacionluvo.org\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/corpo_em_distopia-1.jpg\" alt=\"CORPO_EM_DISTOPIA (1)\" width=\"428\" height=\"659\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-490\" class=\"wp-caption-text\">Corpo em distopia &#8211; Lai Ferreira<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align:justify;\">Deixando de compreender onde reside o erro, ele tamb\u00e9m n\u00e3o vislumbra a sa\u00edda, n\u00e3o cobra a solu\u00e7\u00e3o. A maior vit\u00f3ria dessa guerra \u00e9 n\u00e3o se passar por uma guerra, e desarticulando as informa\u00e7\u00f5es, formatando as consci\u00eancias, as for\u00e7as hegem\u00f4nicas que sempre vibraram neste mundo continuam a existir em estado de hegemonia. Peguemos os exemplos de ra\u00e7a, g\u00eanero e sexualidade. O estado e a qualidade de vida com que pessoas transg\u00eaneras, negras, ind\u00edgenas e LGBT+ vivem neste mundo \u00e9 um estado de guerra, onde o ataque se mobiliza do n\u00edvel mais concreto at\u00e9 o mais subjetivo. Deixando de pautar os privil\u00e9gios que a branquitude, a heterossexualidade e a cisgeneridade tem neste mundo tamb\u00e9m deixamos de pautar como essas condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia chegaram ao poder e se tornaram s\u00edmbolos do que \u00e9 ser normal ao mesmo tempo em que considera anormal tudo aquilo que se difere dela. A guerra ent\u00e3o est\u00e1 dada e ela tem como foco perseguir as exist\u00eancias n\u00e3o normativas, fora dos padr\u00f5es, desencaixadas da norma, para que elas possam parar de atrapalhar o caminhar deste mundo, que ela se retire dele e pare de uma vez de celebrar algo que n\u00e3o seja o sentenciado pela sociedade. H\u00e1 uma guerra acontecendo, mas para quem ela est\u00e1 em voga?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O mundo \u00e9 um lugar perigoso para aqueles que n\u00e3o foram autorizados a pisar nele, ou perderam no meio do caminho a outorga para continuar existindo com direito e liberdade. Estar no mundo com a liberdade suspensa \u00e9 n\u00e3o existir, \u00e9 n\u00e3o poder propor, \u00e9 n\u00e3o poder se impor, \u00e9 reduzir os afetos para engrossar a casca da guerra, \u00e9 estar mais atento do que relaxado, \u00e9 n\u00e3o ter direito \u00e0 paz.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ser um corpo dissidente no mundo \u00e9 n\u00e3o passar despercebido, \u00e9 ser sempre notado, apontado, acusado, mal visto, \u00e9 chegar com o copo meio cheio, \u00e9 n\u00e3o habitar o vazio, a possibilidade. Ser um corpo dissidente no mundo \u00e9 perder as possibilidades, as oportunidades, as chances de fluir e prosperar na vida, \u00e9 conviver arraigado no boicote: estrutural, mental, externo, interno. Est\u00e3o arraigados no boicote os pobres, os negros, a comunidade LGBT+, as mulheres, os gordos, os migrantes, os imigrantes, as pessoas com defici\u00eancia, os ind\u00edgenas, os ciganos e todos aqueles que n\u00e3o passam na fronteira do padr\u00e3o; que permanecem do lado de c\u00e1 acusados por corpos que se julgam neutros e normais. Esses n\u00e3o t\u00eam direito \u00e0 vida, e quem n\u00e3o tem direito \u00e0 vida perdem sobretudo o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Esses vivenciam o oposto da utopia, vivenciam a descren\u00e7a, o desgaste, a desesperan\u00e7a, o cansa\u00e7o, o fracasso de um projeto, vivenciam a distopia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Um corpo em distopia \u00e9 um corpo cansado deste mundo, que se cansou do tratamento oferecido a ele no momento em que descobriram ou contaram que ele n\u00e3o era neutro, que precisava ser punido, vigiado, cobrado, que ele era ris\u00edvel, que n\u00e3o teria chance alguma com a vida. Um corpo em distopia n\u00e3o sonha, tolera o mundo. Ele \u00e9 obrigado a ouvir que somos todos humanos, mas sabe que n\u00e3o experienciamos a mesma humanidade, para alguns ela \u00e9 aus\u00eancia, ela \u00e9 desumanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Um corpo em distopia carrega utopias poss\u00edveis, prontas para serem calcadas, executadas, operadas na encruzilhada deste mundo. <a href=\"https:\/\/www.mpba.mp.br\/sites\/default\/files\/biblioteca\/direitos-humanos\/direitos-da-populacao-lgbt\/obras_digitalizadas\/audre_lorde_-_textos_escolhidos_portu.pdf\">Pois como nos aponta Audre Lorde sobre o maquin\u00e1rio da opress\u00e3o<\/a>: \u201cE quando elas aparecem para me destruir, n\u00e3o durar\u00e1 muito para que depois eles apare\u00e7am para destruir voc\u00ea.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A guerra que quando n\u00e3o mata, carcome e dilacera os corpos Lucas Dantas&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1508,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[69,85,86,155,196],"class_list":["post-1057","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-genero","tag-corpo","tag-dissidencia","tag-distopia","tag-opressao","tag-utopia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1057","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1057"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1057\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1508"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1057"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1057"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1057"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}