{"id":786,"date":"2020-09-11T18:33:17","date_gmt":"2020-09-11T22:33:17","guid":{"rendered":"http:\/\/fundacionluvo.org\/?p=786"},"modified":"2020-09-11T18:33:17","modified_gmt":"2020-09-11T22:33:17","slug":"relegadas-ao-espaco-do-nao-ser","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fundacionluvo.org\/?p=786","title":{"rendered":"Relegadas ao espa\u00e7o do n\u00e3o-ser"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Danielle Coenga-Oliveira<br><\/strong>Instagram: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/feministamente.leve\/?hl=fr-ca\">@feministamenteleve<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">\u00ab&nbsp;<em>Porque eu, uma mestiza, continuamente saio de uma cultura para outra, porque eu estou em todas as culturas ao mesmo tempo, alma entre dos mundos, tres, cuatro, me zumba la cabeza con lo contradictorio. Estoy norteada por todas las voces que me hablan simult\u00e1neamente<\/em>&nbsp;\u00bb <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">-Gloria Anzald\u00faa, 2005<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">(Reflito) Mais cedo, hav\u00edamos comentado da inveja sentida da confian\u00e7a que tinha aquele homem branco canadense profissionalmente bem posicionado que falava. Ironiz\u00e1vamos. Discut\u00edamos de como aquela confian\u00e7a [individual] pode ser pensada como o resultado da legitima\u00e7\u00e3o desse corpo [masculino, branco, heterossexual.. normalizado] e dos saberes que ele traz. Depois, trazendo reflex\u00f5es sobre nossas pr\u00f3prias viv\u00eancias, falamos em como mulheres e outros corpos subalternizados tem sua auto-estima e auto-confian\u00e7a atacadas\/dilaceradas durante seus percursos de vida. \u00ab&nbsp;N\u00e3o \u00e9 racional, n\u00e3o tem for\u00e7a, n\u00e3o sabe de pol\u00edtica, n\u00e3o entende de economia, n\u00e3o goza, n\u00e3o entende, n\u00e3o sabe. Se cale!&nbsp;\u00bb .. Ra\u00e7a, classe, condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica, orienta\u00e7\u00e3o sexual, identidade de g\u00eanero, l\u00edngua, religi\u00e3o, localidade. Dependendo de onde partimos [de como somos] existe um n\u00e3o-dito [alta e amplamente] bem dito que nos afirma que n\u00e3o podemos e que n\u00e3o somos capazes. Vozes, atos, olhares que nos imp\u00f5em e nos fazem acreditar que aquilo n\u00e3o \u00e9 pra gente, que ali n\u00e3o \u00e9 o nosso lugar. S\u00e3o micro-macro viol\u00eancias repetidas e constantes (um intenso processo de reifica\u00e7\u00e3o, para lembrar Foucault e Butler) que nos querem transformar em corpos que n\u00e3o-s\u00e3o. Somos relegadas ao espa\u00e7o do n\u00e3o-ser.<\/p>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/fundacionluvo.org\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/8301f465-5259-4791-b719-20e7986777c4.jpg?w=1024\" alt=\"\" class=\"wp-image-790\" width=\"392\" height=\"392\" srcset=\"https:\/\/fundacionluvo.org\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/8301f465-5259-4791-b719-20e7986777c4.jpg 2160w, https:\/\/fundacionluvo.org\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/8301f465-5259-4791-b719-20e7986777c4-300x300.jpg 300w, https:\/\/fundacionluvo.org\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/8301f465-5259-4791-b719-20e7986777c4-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/fundacionluvo.org\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/8301f465-5259-4791-b719-20e7986777c4-150x150.jpg 150w, https:\/\/fundacionluvo.org\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/8301f465-5259-4791-b719-20e7986777c4-768x768.jpg 768w, https:\/\/fundacionluvo.org\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/8301f465-5259-4791-b719-20e7986777c4-1536x1536.jpg 1536w, https:\/\/fundacionluvo.org\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/8301f465-5259-4791-b719-20e7986777c4-2048x2048.jpg 2048w, https:\/\/fundacionluvo.org\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/8301f465-5259-4791-b719-20e7986777c4-600x600.jpg 600w, https:\/\/fundacionluvo.org\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/8301f465-5259-4791-b719-20e7986777c4-700x700.jpg 700w, https:\/\/fundacionluvo.org\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/8301f465-5259-4791-b719-20e7986777c4-800x800.jpg 800w, https:\/\/fundacionluvo.org\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/8301f465-5259-4791-b719-20e7986777c4-1000x1000.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 392px) 100vw, 392px\" \/><figcaption>Imagen: Danielle Coenga-Oliveira<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">(Lembro) Juntas, eu e ela filosofamos sobre esse sentimento que nos permeia, que nos invade, que nos constr\u00f3i mulheres, pessoas, corpos fora da norma. Ra\u00e7a, classe, l\u00edngua, pertencimento. Marcadores que influenciar\u00e3o o lugar social que ocupamos, que vamos ocupar (\u00e9 o famoso teto de vidro). Trazendo mais pra perto, n\u00f3s duas, somos latinas, mulheres racisadas (n\u00e3o-brancas), imigrantes. Condi\u00e7\u00f5es sociais, raciais, familiares, individuais marcam as mulheres que somos hoje. Quem somos. Mas, aqui, n\u00e3o somos do Norte Global, n\u00e3o pertencemos ao Ocidente (pasmem!), n\u00e3o falamos uma l\u00edngua hegem\u00f4nica, n\u00e3o somos. Embora, sejamos muitas e muitas coisas.. muitas vezes [aqui e ali] n\u00e3o somos.<\/p>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">(Paro) Sentindo o pertencer ao espa\u00e7o do n\u00e3o-ser, me lembro das palavras acolhedoras de Gloria Anzaldua em A consci\u00eancia Mestiza. Lembro do abra\u00e7o que senti ao ler seu texto. Me reconhe\u00e7o a Mestiza, aquela cuja consci\u00eancia, corpo, saberes, sentires e olhares s\u00e3o fronteiri\u00e7os. Sinto a margem. Sento \u00e0 margem para apreciar as belezas da vida, para analisar os problemas do mundo. Estou nela e esse n\u00e3o-lugar se transforma num lugar revolucion\u00e1rio, fora e maior do que qualquer caixa.<\/p>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">(Respiro) Isso me faz pensar em Fanon e no que ele chama da zona do n\u00e3o-ser. Uma \u00ab&nbsp;regi\u00e3o extraordinariamente est\u00e9ril&nbsp;e \u00e1rida\u00bb, diz ele. (Abro o livro pensando no n\u00e3o-ser, salto trechos, leio) \u00ab&nbsp;de tempos a outro, a gente tem vontade de parar. Exprimir o real \u00e9 coisa \u00e1rdua.. (Suspiro, salto, ele segue) \u00ab&nbsp;Sentimento de inferioridade? N\u00e3o, sentimento de inexist\u00eancia&nbsp;\u00bb.. (Calo) \u00ab&nbsp;quando a gente coloca na cabe\u00e7a de tentar exprimir a exist\u00eancia, a gente corre o risco de apenas encontrar o inexistente&nbsp;\u00bb. (Sinto) Ecoa em mim e me faz pensar em tantos outros corpos.. Violentados para serem invisibilizados, apagados, aniquilados.. carregando um sentimento presente, que me \u00e9 familiar \/ que nos \u00e9 familiar, de n\u00e3o-ser.<\/p>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Mas Fanon nos presenteia no fim do cap\u00edtulo (Sorrio). Dizemos, \u00ab&nbsp;contudo, de todo meu ser, eu recuso essa imputa\u00e7\u00e3o. Eu me sinto uma alma t\u00e3o vasta quanto o mundo, verdadeiramente uma alma profunda como o mais profundo dos rios, no meu peito carrego a pot\u00eancia da expans\u00e3o infinita&nbsp;\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">(Leveza) Sem mais. Sigamos sendo ser, sentido e partilhando por onde passarmos. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Danielle Coenga-OliveiraInstagram: @feministamenteleve \u00ab&nbsp;Porque eu, uma mestiza, continuamente saio de uma cultura para&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":790,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[43,104,109,140,148],"class_list":["post-786","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-interseccionalidad","tag-auto-confianca","tag-frantz-fanon","tag-gloria-anzaldua","tag-mestiza","tag-nao-ser"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/786","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=786"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/786\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/790"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=786"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=786"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=786"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}