{"id":796,"date":"2020-09-16T18:35:59","date_gmt":"2020-09-16T22:35:59","guid":{"rendered":"http:\/\/fundacionluvo.org\/?p=796"},"modified":"2020-09-16T18:35:59","modified_gmt":"2020-09-16T22:35:59","slug":"autoconfianca-como-ato-politico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fundacionluvo.org\/?p=796","title":{"rendered":"Autoconfian\u00e7a como ato pol\u00edtico"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><span class=\"uppercase\">Quando a constru\u00e7\u00e3o da (auto)confian\u00e7a \u00e9 um ato pol\u00edtico? <\/span><\/strong><br><strong><span class=\"uppercase\">A autoconfian\u00e7a \u00e9 um constructo pol\u00edtico-social?<\/span><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Priscylla Monteiro Joca<br><\/strong>Doutoranda em Direito pela Universidade de Montr\u00e9al<br>Instagram: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/priscyllamonteirojoca\/\">@priscyllamonteirojoca<\/a><br><a href=\"mailto:priscyllamonteirojoca@gmail.com\">priscyllamonteirojoca@gmail.com<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Perdi a conta da quantidade de vezes que ouvi (e disse), \u201cqueria ter a autoconfian\u00e7a de um homem canadense branco.\u201d Ou, \u201cele s\u00f3 conseguiu fazer tudo isso porque ele \u00e9 homem.\u201d Essas frases (me\/nos) provocam uma avalanche de sentir-pensar.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho me questionado, ent\u00e3o, como \u00e9 poss\u00edvel \u2018trabalhar a (minha\/nossa) autoconfian\u00e7a.\u2019 Esse sentimento que tem sido referido como algo subjetivo, individual, que emanaria da rela\u00e7\u00e3o de uma pessoa consigo mesma. Contudo, tenho tamb\u00e9m refletido sobre outras camadas ou aspectos da autoconfian\u00e7a e como esta se expressa em \u00e2mbitos coletivo e pol\u00edtico-social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Partindo da compreens\u00e3o de que esse n\u00e3o \u00e9 um sentimento homog\u00eaneo ou monol\u00edtico (do modo \u2018ou se t\u00eam, ou n\u00e3o se t\u00eam\u2019), a autoconfian\u00e7a pode se expressar nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais, quando se confia que \u00e9 merecedora de amor, amizade e intimidade acolhedora e respeitosa. Pode tamb\u00e9m se expressar na autoimagem, seja na aceita\u00e7\u00e3o da apar\u00eancia f\u00edsica e festejo do pr\u00f3prio corpo (seja este como for), ou na consci\u00eancia e valoriza\u00e7\u00e3o de compet\u00eancias e habilidades que lhe s\u00e3o pr\u00f3prias. Esses aspectos da autoconfian\u00e7a s\u00e3o fundamentais!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">No entanto, a que me refiro \u00e9 a (auto)confian\u00e7a que se tem na capacidade de ocupar posi\u00e7\u00f5es profissionais ou pol\u00edticas que envolvem exerc\u00edcio de poder de decis\u00e3o de car\u00e1ter coletivo e\/ou p\u00fablico. Por vezes, essas posi\u00e7\u00f5es est\u00e3o relacionadas ao imagin\u00e1rio social-neoliberal da meritocracia. Assim como, me refiro \u00e0 confian\u00e7a de que, em se conseguindo ocupar essas posi\u00e7\u00f5es, haver\u00e1 um sentimento de pertencimento, a sensa\u00e7\u00e3o de que tal lugar tamb\u00e9m lhe pertence como um <em>locus<\/em> social-pol\u00edtico que lhe cabe ocupar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Nos \u00faltimos anos, tenho refletido sobre isso por duas raz\u00f5es. Uma \u00e9 que, como pesquisadora em direitos humanos e ambientais, tenho me perguntado quest\u00f5es: Como a fragilidade de autoconfian\u00e7a (individual e coletiva) se apresenta como mais um obst\u00e1culo para a luta por e o exerc\u00edcio de direitos? E como essa \u2018fragilidade\u2019, somada a quest\u00f5es estruturais, dificulta ainda mais a busca de minorias pol\u00edticas por exercer profiss\u00f5es jur\u00eddicas associadas ao poder decisional, como a magistratura? E, em estando nessas profiss\u00f5es, como essas pessoas se sentem emocionalmente; h\u00e1 sentimentos de pertencimento ou de apartamento e isolamento? Como essa fragilidade se manifesta tamb\u00e9m na academia, no acesso e na sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento (como estudantes e docentes)? Como essa fragilidade de autoconfian\u00e7a \u00e9 um constructo pol\u00edtico-social a fim de manter rela\u00e7\u00f5es assim\u00e9tricas de poder associadas ao Direito, ao Sistema de Justi\u00e7a e \u00e0 Academia? E como isso se associa ao n\u00e3o exerc\u00edcio da participa\u00e7\u00e3o por parte de minorias pol\u00edticas que afeta a constru\u00e7\u00e3o de uma democracia real?<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/fundacionluvo.org\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/img-9355.jpg?w=820\" alt=\"\" class=\"wp-image-800\" width=\"396\" height=\"494\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Outra, se relaciona a um aspecto mais pessoal. Que remonta a uma lista infind\u00e1vel de experi\u00eancias sociais como mulher, vinda da classe trabalhadora, filha de m\u00e3e solo e negra, do nordeste do Brasil, que precisou trabalhar desde o in\u00edcio da adolesc\u00eancia, que foi bolsista a vida inteira (desde o per\u00edodo escolar), imigrante no Qu\u00e9bec, Canad\u00e1. Essas experi\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o compar\u00e1veis com a de outros corpos os quais por quest\u00f5es de g\u00eanero, sexo, ra\u00e7a e classe acessam bem menos direitos (que, por serem t\u00e3o elitizados, acabam sendo vistos como privil\u00e9gios). Mas s\u00e3o minhas experi\u00eancias. E elas me afetam como pessoa e como ser coletivo e social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Por exemplo, nunca nem tentei fazer concurso p\u00fablico quando morava no Brasil porque achava que a prepara\u00e7\u00e3o para concursos estaria longe da minha realidade socioecon\u00f4mica, precisava trabalhar: quem iria bancar horas de dedica\u00e7\u00e3o ao estudo e quem iria pagar cursos preparat\u00f3rios? Tenho colegas excepcionais que superaram desafios semelhantes e passaram em concursos disputados. Eu n\u00e3o fui exce\u00e7\u00e3o, tornei-me mais um exemplo comum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">No Canad\u00e1, tenho dialogado com a minha autoconfian\u00e7a sobre quest\u00f5es ligadas ao acesso e ao pertencimento. Estou fazendo doutorado em direito em uma universidade que est\u00e1 entre as 100 melhores do mundo. Tenho tido a honra (e o privil\u00e9gio) de ter bolsas de prest\u00edgio e de trabalhar com assistente de professoras e professores que s\u00e3o refer\u00eancias internacionais em seus campos de estudo. Ainda assim, todos os dias me pergunto, \u201co que estou fazendo aqui?\u201d (E isso vai para al\u00e9m da s\u00edndrome de impostora que acomete tantas acad\u00eamicas, isso tamb\u00e9m toca quest\u00f5es e experi\u00eancias sociais e pol\u00edticas).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Por vezes bate d\u00favidas como, ser\u00e1 que deveria ao menos tentar me tornar professora por aqui? (Um percentual baix\u00edssimo de doutoras se torna professora, enquanto o desemprego entre doutoras(as) e mestras(es) v\u00eam aumentando assustadoramente). Ainda que saiba (com muita certeza) do quanto era uma excelente professora universit\u00e1ria no Brasil e do quanto amo a doc\u00eancia\u2026 (Minha av\u00f3, como matriarca, em seus raros momentos de carinho, dizia, \u201cminha filha, v\u00e1 para onde voc\u00ea for, mas voc\u00ea sempre ser\u00e1 uma professora.\u201d) Por vezes, penso que, se eu conseguir me tornar uma trabalhadora ocupando a posi\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia que seja ou uma pesquisadora-eterna-p\u00f3s-doutoranda, j\u00e1 terei ido longe demais por aqui. Longe o suficiente para a classe social de onde vim, para o lugar socioecon\u00f4mico onde me constru\u00ed e para a minha condi\u00e7\u00e3o de imigrante. Longe o suficiente para ter sido uma das primeiras graduandas e vir a ser a primeira doutora na fam\u00edlia de onde vim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E como tudo isso tem afetado as minhas ang\u00fastias diante da escrita da tese? E quando o doutorado acabar, o que ser\u00e1? E se, diante de tantos privil\u00e9gios me sinto assim, como se sentiriam mulheres ind\u00edgenas, quilombolas, quebradeiras de coco, pantaneiras, pescadoras, camponesas, negras, latino-americanas, finalizando um doutorado aqui ou em qualquer outro lugar do mundo? E quanto \u00e0s mulheres que, especialmente nesses tempos de pandemia, tem vivido seus cotidianos na resist\u00eancia e na luta pela sobreviv\u00eancia, se sentindo \u00e0 margem de quaisquer espa\u00e7os decisionais que as afetam intensamente?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Diante de tanto, n\u00e3o tenho respostas. Trago somente mais perguntas. Como superar esses sentimentos? Como superaremos juntas, sem nos tornar <em>cases de sucesso<\/em> e sem nos deixar emaranhar na l\u00f3gica competitiva neoliberal, revolucionando lugares, dando-nos \u00e0s m\u00e3os, abrindo caminhos para as que vierem depois e estando junta \u00e0quelas que est\u00e3o tamb\u00e9m caminhando hoje? Como nos libertaremos da colonialidade de poderes e saberes que insistem em nos legar \u00e0 subalternidade, ou nos negam a possibilidade de participar efetivamente de inst\u00e2ncias de decis\u00e3o, ou nos convidam a adentrar em l\u00f3gicas colonialistas\/classistas\/racistas\/competitivas\/excludentes a fim de \u2018nos destacarmos\u2019 e sermos subalternamente inseridas de algum modo? E como tomaremos consci\u00eancia de n\u00f3s mesmas, compreendendo que existem mulheres em situa\u00e7\u00f5es t\u00e3o mais vulnerabilizadas e que, portanto, necessitar\u00e3o de mais aten\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas e a\u00e7\u00f5es de solidariedade?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Nesse momento, estou lendo a psicologia do colonialismo, de Ashis Nandy. Em um futuro breve ou distante, talvez encontre pistas de respostas poss\u00edveis. Por hora, tenho tentado me fortalecer com a s\u00f3 certeza de que <strong><em>sim, juntas, n\u00f3s podemos<\/em><\/strong>. E com a forte impress\u00e3o de que a autoconfian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 somente uma constru\u00e7\u00e3o individual-subjetiva, \u00e9 tamb\u00e9m um constructo pol\u00edtico-social. Para n\u00f3s, mulheres que viemos do Sul ou mesmo do Sul do Sul, seguirmos juntas construindo e fortalecendo <strong>nossas pr\u00f3prias express\u00f5es de autoconfian\u00e7a<\/strong> \u00e9 um ato pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Danielle Coenga.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a minha m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">E para uma jovem mulher negra que um dia h\u00e1 de ser ju\u00edza e professora de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify\">Com um agradecimento especial ao Marcos Gigio, esse amigo incr\u00edvel que tem me feito reaprender a ter f\u00e9 em outras humanidades poss\u00edveis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando a constru\u00e7\u00e3o da (auto)confian\u00e7a \u00e9 um ato pol\u00edtico? A autoconfian\u00e7a \u00e9 um&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":800,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,13],"tags":[45,145,164,170],"class_list":["post-796","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-emociones","category-interseccionalidad","tag-autoconfianca","tag-mulheres","tag-pesquisa","tag-politico"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/796","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=796"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/796\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/800"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=796"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=796"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fundacionluvo.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=796"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}